Programas sociais e assistência técnica impulsionam produção, renda e sucessão familiar no Sertão Central.
No âmbito do termo de fomento celebrado pelo Instituto Agropolos do Ceará e o MAPA, que visa fortalecer a organização produtiva e o desenvolvimento rural, compartilhamos uma trajetória que exemplifica o impacto direto dessas ações. No município de Quixeramobim, no Sertão Central, a história de um dos cooperados da COOPERASC, Seu Valdim, ao lado de Maria do Carmo, revela como o acesso a políticas públicas e à assistência técnica pode transformar realidades no campo.
Agricultores do Assentamento Nova Canaã, eles são exemplo de superação, organização produtiva e fortalecimento da agricultura familiar. A trajetória de Seu Valdim começou como vaqueiro na propriedade do Sr. Luiz Machado da Ponte. Com a desapropriação da área pelo INCRA, surgiu o assentamento onde ele foi contemplado com um lote, recebendo a posse da terra em 28 de abril de 1987 — embora o título definitivo tenha sido conquistado apenas há quatro anos. Após ficar viúvo, ele reconstruiu sua vida ao lado de Maria do Carmo, com quem formou uma nova família e teve três filhos: as filhas Aminadabe e Abigail, e o filho Abdon.
Os primeiros anos no assentamento foram marcados por dificuldades, sobretudo devido às secas severas e à limitação de recursos para produção. “Era muito difícil produzir e garantir o sustento da família”, relembra o casal. No entanto, foi justamente em um momento desafiador que surgiu uma oportunidade decisiva.
Em 2001, durante a gravidez da segunda filha, Maria do Carmo foi beneficiada com o salário-maternidade rural — política pública voltada à proteção social das trabalhadoras do campo, instituída no Brasil a partir da Constituição de 1988. Com visão estratégica, ela tomou uma decisão que mudaria o rumo da família.
“Eu via muitas mães gastando com coisas que acabam com o tempo. Preferi investir em algo que pudesse dar retorno para nossa família”, conta Maria do Carmo. Com o valor de R$ 654, o casal comprou uma vaca leiteira por R$ 600 — a “vaquinha tamboeira”, que se tornaria o ponto de partida para o crescimento produtivo da propriedade.
Hoje, a família possui um rebanho com cerca de 20 animais, sendo 8 em lactação, com produção média de 110 litros de leite por dia. A produção é comercializada por meio da Cooperativa Regional dos Assentamentos de Reforma Agrária do Sertão Central do Ceará (COOPERASC), acompanhada pelo Instituto Agropolos do Ceará dentro das ações do PROCRECE. O avanço da atividade também foi impulsionado pelo Projeto São José, que viabilizou o acesso ao melhoramento genético por inseminação artificial. Além do gado leiteiro, a família também cria caprinos, suínos e galinhas.
O processo é conduzido pelo filho mais novo, Abdon, hoje com 22 anos, que foi capacitado pelo projeto e conta com o apoio técnico do médico veterinário da cooperativa. A experiência demonstra como a integração entre políticas públicas, assistência técnica e organização coletiva fortalece a produção rural.
Após sofrer dois infartos, Seu Valdim chegou a pensar em vender a propriedade, por acreditar que não conseguiria mais tocar sozinho as atividades no campo. Foi então que Abdon, ainda muito jovem, pediu ao pai que não vendesse a terra e assumiu o compromisso de cuidar da propriedade e dar continuidade ao trabalho da família.
Além da criação de animais, a família mantém áreas de pastagem e cultivos de milho para silagem, milheto e palma forrageira. Agora, por meio da assistência técnica do Instituto Agropolos do Ceará, também está iniciando uma área de produção de pornunça, fortalecendo a alimentação animal no semiárido.
Além da evolução produtiva, a família também colhe resultados na educação. Abigail é tecnóloga em Alimentos, Aminadabe cursa técnico em leite e derivados e já atua na cooperativa, enquanto Abdon está em formação superior em Tecnologia e Gestão do Agronegócio, todos por meio de instituições públicas como o CENTEC.
Na rotina da propriedade, Maria do Carmo também desempenha papel fundamental. Além de ajudar na lida diária, ela produz doces caseiros, contribuindo para complementar a renda da família.
Para a família, os programas sociais foram fundamentais ao longo dessa trajetória. Além do salário-maternidade, destacam o acesso ao Bolsa Família, Seguro Safra, Hora de Plantar, Agroamigo, Projeto São José e aposentadoria rural como instrumentos essenciais para garantir estabilidade, investir na produção e melhorar a qualidade de vida.
Atualmente, Abdon já se prepara para assumir a gestão da propriedade, dando continuidade ao processo de sucessão familiar. Com olhar voltado para o futuro, ele pretende ampliar a produção e incorporar novas tecnologias, mas faz um alerta: “Tivemos muitos avanços, mas ainda vivemos uma realidade sensível. A continuidade dos programas sociais é fundamental para que o produtor rural tenha condições de permanecer no campo com dignidade.”
A família também destaca o papel da COOPERASC e do Instituto Agropolos do Ceará no apoio técnico e organizacional, fundamentais para fortalecer a agricultura familiar e ampliar oportunidades de mercado.
A história de Seu Valdim e Maria do Carmo evidencia, de forma concreta, que o investimento em políticas públicas, aliado à assistência técnica e à organização produtiva, é um caminho eficaz para promover o desenvolvimento rural, reduzir desigualdades e garantir a permanência das famílias no campo.

